A maternidade além do comercial de margarina

Almoço em família, flores, presentes, fotos no Facebook. São esses os habitués do Dia das Mães, tradições que adoramos e reinventamos a cada nova rede social. Como toda boa data comemorativa, ela chega precocemente em campanhas publicitárias que denunciam seu caráter comercial. Ainda assim, é um dia para pensar com carinho em tudo o que nossas progenitoras fizeram e fazem por nós.

Essa reflexão não deve ser pontual, como bem sabemos (mas é sempre bom lembrar). Da mesma forma, o segundo domingo de maio não é o dia para compensar possíveis desatenções com apenas um presente ou uma “ajuda” na cozinha. A data foi estabelecida há mais de um século para homenagear o árduo trabalho da maternidade, sendo um incentivo para expressar um reconhecimento que deve ser cotidiano. Isso pode ser feito com presentes e surpresas, mas acompanhado de outras ações.

O Dia das Mães foi idealizado no início do século XX pela americana Anna Jarvis, filha de pastores, apesar de haver registros de rituais para enaltecer a figura materna desde a Grécia Antiga. Em 1905, Anna iniciou uma campanha para preservar a memória da mãe após o seu falecimento. Essa iniciativa se desdobrou em eventos realizados em igrejas para valorizar o papel materno na vida de crianças e jovens, que escalaram do regional para o nacional em poucos anos. O Dia das Mães foi oficializado nos Estados Unidos em 1914, sendo gradualmente adotado em outros países, inclusive no Brasil (1932).

Uma curiosidade: não demorou para que a data fosse apropriada por comerciantes, que perceberam o potencial de lucro com a venda de presentes, flores e cartões, muitas vezes esvaziados de sentido. Desapontada, Anna Jarvis se lançou em uma nova campanha, dessa vez para cancelar o Dia das Mães, alegando seus direitos autorais sobre o segundo domingo de maio – o que não surtiu qualquer efeito.

A data comemorativa está cercada por paradoxos desde as suas origens, o que revela um embate constante de mulheres para externar os verdadeiros e múltiplos significados da maternidade. Se em determinada época fazia sentido presentear mães com utensílios domésticos, hoje isso pode ser visto como resquício de uma sociedade patriarcal onde a mulher não tinha outra escolha além do lar. Não que essa noção esteja inteiramente superada, mas ao menos caminhamos no sentido de conquistar uma liberdade plena para as mulheres, validando qualquer decisão, seja cuidar da casa, trabalhar fora ou viajar pelo mundo.

Outro aspecto importante da maternidade é a forma como ela é representada. Por muito tempo, fomos enredados numa trama de glamourização da maternidade, como se fosse o ápice de realização da mulher (que pode, de fato, ser, mas não é a única opção). Pouco se falava do esgotamento, das dúvidas e inseguranças, de sentimentos negativos que não podiam sequer passar pela cabeça de uma mãe. Naturalizar tais questões é um passo fundamental para enfrentá-las, contando com uma rede de apoio externa. Ainda não falamos o suficiente, assim como não estamos prontos para reinserir mulheres no mercado de trabalho após 1 ou 2 anos de dedicação aos filhos. Que tal conversar sobre isso com sua amiga que se tornou mãe?

Entendendo a complexidade do assunto, podemos (e devemos) celebrar a maternidade com uma data especial, um presente, um momento familiar, e principalmente com atenção aos detalhes, ao que o comercial de margarina não mostra. Aproveitar cada minuto ao lado de nossas mães é um presente para nós, talvez mais do que para elas. É uma relação de troca e um aprendizado constante.

Aproveite o Dia das Mães para passar mais tempo com a sua. Confira nosso especial mães e veja o que fazer com ela na sua cidade.