‘Em 2011, o país tinha muito aventureiro’, diz presidente do Peixe Urbano (O Globo)

Para empresário, web brasileira garante ganhos a longo prazo para quem quiser empreender

Por Paulo Justus

Julio Vasconcellos, presidente do site de compras coletivas Peixe Urbano. Marcos Alves

Julio Vasconcellos, presidente do site de compras coletivas Peixe Urbano. Marcos Alves

Carioca cofundador da empresa que se tornou referência para as startups brasileiras, Julio Vasconcellos afirma que o apetite dos investidores estrangeiros por inovação no Brasil não diminuiu, mas está mais seletivo.

Como o senhor classifica a situação do mercado de compras coletivas hoje?

Lançamos o Peixe Urbano em 2010 e o negócio bombou. Mas, aos poucos, o usuário começou a perceber não só que muitas vezes há centenas de ofertas de compra, como também elas acabam voltando, ou seja, não precisavam ter urgência para comprar essas ofertas. Passado um ano e meio, o crescimento, que era vertiginoso, começou a ficar num patamar considerado mais normal. Além disso, muitos dos concorrentes tiveram problemas com o Procon, o que gerou uma nuvem negativa sobre a indústria como um todo, embora a grande maioria das ofertas desse certo. Nós, como indústria, estamos nesse processo de mostrar que melhoramos muita coisa e que o consumidor pode voltar a comprar como antigamente.

O que o Peixe Urbano tem feito para recuperar o crescimento?

Identificamos alguns tipos de negócio que encaixavam bem com a nossa visão a longo prazo e com o nosso modelo atual. Um foi o delivery, outro foi o Guia (lançado este ano para São Paulo e Rio de Janeiro).

O Peixe Urbano foi uma das primeiras startups a receber investimento estrangeiro. Existe ainda apetite para investimento externo no Brasil?

Sim, ainda vejo o investidor de fora com apetite pelo Brasil. Acho que em 2011 tinha muito aventureiro. Gente que vinha porque via o Brasil na capa da “The Economist”, porque estava na moda. Esses caras saíram, porque o Brasil deu uma desaquecida. Foram para o país que é a bola da vez este ano. Mas acho que teve muita gente também que viu o potencial a longo prazo, porque a penetração de internet e do e-commerce é pequena.

Ainda assim, muitos fundos estão aqui. Há mesmo tanta startup com potencial de crescimento no Brasil?

Tem muito dinheiro e não tem muita equipe boa. Igual aos investidores que caíram de paraquedas, teve empreendedor que entrou porque era moda. Gente que não é tão séria, não é tão dedicada, não está disposta a trabalhar 24 (horas) por 7 (dias), que é o que você precisa para que uma startup dê certo nos primeiros anos. Isso tumultuou um pouco o mercado. Então, a peneira, o funil têm de ser mais apurados agora.

Um empreendedor me disse que não queria estar na sua pele, porque você estaria “com muito dinheiro de fundos de investimento num mercado que não cresce”. Qual é o caminho para crescer?

A gente espera a retomada do crescimento em compras coletivas. Sim, a vida do Julio Vasconcellos é dura, pelo fato de o mercado ter sido tão volátil e ter tanta surpresa. Mas isso acontece com quem decide empreender, opta de certa forma pela aventura também. Vai haver dias bons, dias ruins, mas a longo prazo temos mais dias bons que ruins.

Quando vocês pretendem abrir o capital?

Pensamos que poderíamos ter como ponto de saída uma abertura de capital. Porém, não temos nenhum plano específico. A ideia é continuar crescendo, tornar viável a longo prazo e daí, em algum momento, tomar essa decisão.

Quais devem ser as próximas startups brasileiras de sucesso?

Um mercado em que eu mesmo avaliei entrar é o imobiliário. Acho que também estamos vendo a web como canal de distribuição direta para gente que está montando marcas independentes. Tenho um amigo que lançou uma marca única de óculos de grau. Em vez de ir para as lojas, resolveu distribuir direto para os consumidores.

Fonte: O Globo, Economia, 16/03/13

O Globo 2013.03.17

Versão impressa