Empresário precisa estudar? (Pequenas Empresas Grandes Negócios)

Sentar nos bancos da escola ajuda ou atrapalha quem tem ímpeto empreendedor? Para responder a essa pergunta, entrevistamos especialistas em todo o mundo e demos a palavra a 50 dos mais bem-sucedidos homens de negócios do país. Nas próximas páginas, você vai descobrir as respostas e também como cada um deles aprendeu — de verdade — a fazer negócios

Por Sérgio Tauhata, com reportagem de Patrícia Machado e Bruna Martins Fontes

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NEGÓCIOS NA SALA DE AULA | Alunos da pós-graduação em Administração da FIA, em São Paulo: aposta no aprendizado convencional

Empresários podem ser fabricados e moldados nos bancos escolares? a discussão a respeito dessa pergunta carrega dois dos mais poderosos — e perigosos — mitos do empreendedorismo: 1) o de que empreendedor nasce empreendedor; 2) o de que não é preciso ter educação nem tampouco experiência para abrir e manter uma empresa com sucesso. enquanto os cientistas tentam descobrir o gene que faria uma pessoa ter mais aptidão para os negócios que outra (ainda não há estudos conclusivos), o americano peter thiel inventou um jeito de deixar o assunto em evidência. há pouco mais de dois meses, ele decidiu colocar US$ 2 milhões nas mãos de 24 jovens com menos de 20 anos (quase US$ 100 mil para cada um!), desde que eles abandonassem a faculdade e se dedicassem exclusivamente às suas startups (veja na pág. 57). “Precisamos de um melhor modelo de geração de conhecimento”, diz Thiel, ele mesmo um visionário, 44 anos, dois diplomas por Stanford, um de Direito e outro de Filosofia, no currículo, que traz também a fundação do PayPal (sistema de pagamentos pela rede) e investimentos de fase inicial do Facebook — negócios que o colocaram na confortável posição de investidor bilionário e mantenedor de uma fundação que leva seu nome.

A ideia de Thiel foi acolhida com ceticismo nos Estados Unidos, país que detém o maior número de escolas de empreendedorismo do mundo: nada menos que dois mil centros, de acordo com a Fundação Kauffman, uma das mais respeitadas instituições dedicadas ao ensino do tema. Por lá, já preocupa o fato de o abandono dos estudos estar sendo considerado até motivo de orgulho em certos meios: “O ambiente de negócios em tecnologia encoraja os estudantes a desistir”, disse ao Financial Times o diretor de empreendedorismo da Universidade de Berkeley, Andre Marquis, que viu três de seus alunos trocarem a escola por startups no último semestre.

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Para o professor Enio Pinto, diretor brasileiro de parcerias e programas globais do Babson College, de Boston, outro importante centro de pesquisas, o distanciamento da vida acadêmica levanta pontos importantes sobre a qualidade e a validade da educação, mas pode ser um exemplo perigoso para quem quer se arriscar na nova sociedade do conhecimento: “Um empreendedor que nunca frequentou a universidade não fica automaticamente numa situação mais ou menos confortável. O que muda é a forma de aprendizado: quando se tem educação, os tombos doem menos”.

Será? Para o professor Fernando Dolabela, da Fundação Dom Cabral (FDC), autor de 11 livros sobre o tema e fervoroso defensor da educação empreendedora, o que está em questão não é a necessidade ou não de estudar, e sim o que é ou não possível aprender. “Não é na porta da universidade que se deve bater quando se procura capacidade. Existem competências que não podem ser ensinadas”, diz, em alusão à aparente habilidade inata que empreendedores têm de identificar boas oportunidades no mercado. Dolabela, contudo, pede calma àqueles que, a partir dessa afirmação, se apressam em dizer que escola é pura perda de tempo. “O motor da geração de ideias não está confinado a quatro paredes, e sim na rua. Mas é inegável que a escola tem o poder de produzir e gerar riquezas em maior escala.”

Seja entre os especialistas, seja entre os empreendedores de sucesso — que colecionam as mais diversas formações —, sobram argumentos para a defesa de qualquer tese sobre a necessidade ou não de cursos e diplomas. Em um país como o Brasil, no entanto, questionar a validade da educação é no mínimo arriscado. Senão, vejamos: os brasileiros ocupam hoje a assombrosa 88a posição no Relatório de Monitoramento Global da Unesco, que observa o desempenho de 127 países em relação a metas de qualidade para a educação. Mais: embora sejamos hoje um dos paí­ses em que mais aumentaram os investimentos em educação, ainda temos 600 mil crianças fora da escola. “Empreendedor precisa estudar, sim. Não é preciso ter MBA para abrir uma empresa, mas o conhecimento é um combustível para o sucesso dos negócios”, diz Juliano Seabra, diretor de pesquisa e educação da Endeavor no Brasil.

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Seabra afirma que o problema de pôr em xeque a necessidade ou não de estudar para ser um empresário de sucesso, a exemplo do que faz agora Peter Thiel com seus pupilos, é incentivar jovens a abdicar precocemente de instrumentos de extrema valia para suas trajetórias. Para ele, é preciso lembrar que, por décadas a fio, o Brasil foi o país dos bacharéis. Pais e mães sonhavam com filhos diplomados preferencialmente em Direito, Engenharia ou Medicina. Ou com a admissão de um deles em concursos públicos, o que lhes garantiria sustento e estabilidade. Ao contrário do que ocorre na sociedade americana, onde ser empresário, há tempos, é visto como razão de orgulho para pais e mestres, os brasileiros começaram a mudar sua opinião sobre o assunto somente agora. “Até 20 anos atrás, empreender era visto como uma aventura, coisa de maluco mesmo. Essa visão, fruto de sucessivos planos econômicos que geravam insegurança, só perdeu força nos últimos anos, com a estabilidade e o crescimento do país”, afirma Seabra.

A origem da equivocada crença de que empresários — de sucesso ou não — eram aqueles que não se davam bem nos estudos formais está relacionada com a proporção entre as taxas de empreendedorismo por oportunidade versus as de empreendedorismo por necessida¬de. No Brasil, até 2003, a segunda sempre foi maior que a primeira. A mudança tem sido paulatina. Em 2010, para cada empreendedor por necessidade havia outros 2,1 que empreendiam por oportunidade. O número atual é semelhante à média dos países que participaram do estudo, que foi de 2,2 empreendedores por oportunidade para cada um por necessidade. Dados do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) apontam também outra tendência: a de que os empreendedores brasileiros estão mais escolarizados. A maior parte dos empresários iniciantes hoje tem de cinco a onze anos de estudos. Por outro lado, quem tem menos bagagem curricular, com até quatro anos de estudo, abre menos negócios. Outra boa nova é que, de acordo com o Sebrae, nos últimos cinco anos mais de 200 mil estudantes de ensino fundamental e médio frequentaram cursos de empreendedorismo em escolas de todo o Brasil. No ano passado, aportou por aqui a plataforma de ensino FastTrac, da Fundação Kauffman, que tem por objetivo facilitar o ensino de empreendedorismo e a criação de empresas em qualquer área, da matemática à arquitetura, das ciências sociais à engenharia. Em apenas um ano, o programa já está presente em mais de 25 universidades em todo o país.

Mas, antes de celebrar as mudanças, é preciso lembrar que, na cabeça de muita gente, o empreendedorismo continua sendo uma espécie de terceira via para quem não tem talento ou paciência para o estudo formal, ou, na hipótese de ter, não conseguiu emprego. Um dos negócios mais famosos de São Paulo nos anos 80, por exemplo, era a lanchonete chamada “O engenheiro que virou suco”. No Brasil, empresários talhados fora dos muros da escola, como Silvio Santos ou Samuel Klein, ainda costumam ser lembrados como exemplo-mor da suposta irrelevância da educação formal. Na opinião de Marcos Hashimoto, coordenador do Centro de Empreendedorismo do Insper, de São Paulo, o principal benefício que o estudo formal traz a um empreendedor é diminuir sensivelmente a sensação de risco e incerteza que abrir e tocar um negócio sempre traz a qualquer pessoa, independentemente de sua formação. “Educação traz segurança. Quando o empresário recorre a mentores, a palestras, a livros e a qualquer outra fonte de conhecimento, ele identifica melhor quais são suas habilidades e diminui o seu grau de incerteza. Por outro lado, autoconfiança demais pode ser o começo do fim de um negócio.”

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Os números sugerem que estudar faz mesmo diferença. Tome-se por exemplo a lista das pessoas mais ricas do mundo, elaborada pela Forbes. Dos mais de 270 bilionários americanos que construíram suas fortunas sem herdar um único dolar, apenas 9% têm curso superior incompleto ou pararam no ensino médio. Chama a atenção também a porcentagem de bem-sucedidos egressos das melhores universidades americanas: 10% vieram de Harvard e outros 5% de Stanford. Mas esses dados não têm o poder de encerrar a controvérsia. Quem observa o topo do ranking descobrirá logo que, nas dez primeiras colocações, são cinco diplomados versus cinco que largaram os estudos. Aqueles que acham que a chamada “escola da vida” é mais relevante para o sucesso do negócio podem pinçar da lista nomes como Bill Gates (2o colocado), que deixou seu curso de Direito em Harvard no terceiro ano; ou Larry Ellison (5o), fundador da Oracle, que deixou dois cursos superiores, um de Matemática e outro de Física, no meio do caminho; ou ainda Amancio Ortega (7o), fundador da espanhola Zara, que completou apenas o ensino médio. Entre os que têm um diploma para ostentar estão o mexicano Carlos Slim Helu (1o colocado) e Warren Buffet (3o), ambos formados em Administra¬ção. Mas os defensores dos livros têm mais um argumento na manga: dados da Fundação Kauffman mostram uma relação direta entre boa formação e performance. Um estudo realizado em 2010 mostrou que os donos de negócios formados pelas principais universidades dos EUA apresentam faturamento cerca de três vezes superior ao dos seus pares que completaram só o ensino médio.

Embora não faltem exemplos para defensores de qualquer um dos pontos de vista, a professora de empreendedorismo Lynda Applegate, da Harvard Business School, sublinha que a “velha-guarda” do empreendedorismo não serve como modelo para as próximas gerações e tampouco pode ser vista como referência para o que vai ocorrer daqui para a frente: “A nova geração empreendedora é global e educada. Quem quer entrar de verdade no mundo dos negócios inovadores e de alto impacto tem de se preparar. Mesmo que seja por conta própria”, diz. “O problema dessas histórias de sucesso sem estudos é que elas nunca são lembradas levando em conta o contexto e a época em que se deram”, afirma o coordenador de projetos do centro de empreendedorismo e novos negócios da Fundação Getulio Vargas (FGVCenn), René Fernandes.

Sair em busca de oportunidades de conhecimento foi uma decisão do ex-office-boy Edivan Costa, de 39 anos, fundador da empresa de licenciamentos Sedi (depoimento na pág. 54). A história de Edivan exemplifica bem o quão distorcida é a imagem de que o empreendedor nasce empreendedor. Obstinado, ele vivia com documentos de uma imobiliária embaixo do braço. Seu papel era conseguir licenças e alvarás, numa constante peregrinação a órgãos públicos de Belo Horizonte, a cidade onde nasceu. Enquanto procurava os atalhos para a burocracia, viu uma oportunidade. Mas, antes de montar sua empresa, devorou todos os livros de gestão que via pela frente. “Em geral, os empresários bem-sucedidos que não têm formação escolar encontram o conhecimento de outras maneiras. No caso do Edivan, colegas, livros e pesquisas foram decisivos”, observa Juliano Seabra, da Endeavor.

Ao longo desta reportagem, 50 empreendedores que frequentaram os mais diferentes cursos, ou então abandonaram a escola, revelam como aprenderam a fazer negócios. Embora as formações sejam variadas, todos eles deixaram claro que há, sim, coisas que não dá para aprender nem mesmo na mais renomada das instituições, a saber: paixão, compaixão, humildade, persistência, criatividade, coragem e, sobretudo, a disciplina de se tornar um ser humano melhor.

Precisar, não precisa. Mas ajuda 

Quem tem conhecimento pode aproveitar melhor as oportunidades

PEGN 2011.07.01 (5)Emerson Andrade, 37 anos, sócio-fundador e COO do site de compras coletivas Peixe Urbano
Faturamento: R$ 100 milhões
Formação: Administração na Universidade Federal do Paraná e MBA em Stanford

Sua formação em Administração fez diferença no desempenho à frente da empresa? 
Sim. A faculdade e o MBA me permitiram conhecer um pouco sobre diferentes áreas, o que me deu estofo para montar um bom time de profissionais. Eles sabem muito bem o que estão fazendo. Isso foi fundamental para o crescimento do Peixe Urbano, que faturou mais de R$ 100 milhões em um ano de operação. Do curso técnico em eletrônica, levo o pensamento analítico que desenvolvi nessa época e que me ajudou bastante em outras áreas do negócio, uma vez que lido com tecnologia. Mas o maior presente por ter investido na minha educação foi conhecer meu sócio durante o MBA que fiz em 2005.

Empreendedor precisa ir para a escola? 
A educação formal não é necessária, mas ajuda. Quem tem conhecimento de gestão está preparado para tomar decisões e aproveitar melhor as oportunidades que surgem. E, convenhamos, uma boa chance não passa duas vezes na sua frente. A escola também possibilita o contato com mais pessoas, e isso é essencial para o negócio, porque você aprende com gente que já trilhou aquele caminho. Mas conheço muita gente que fez sucesso mesmo sem ter educação formal. Há pessoas que já nascem sabendo negociar; outras só conseguem aprender um pouco disso na faculdade.

O que é preciso estudar para administrar bem o negócio? 
É muito importante entender de gestão e do seu negócio. Mas o dono não precisa ser “expert” em todas as áreas. O ideal é saber um pouco sobre cada tema para acompanhar bem o trabalho de quem cuida desses setores. Esse conhecimento também deve ser usado para contratar bons profissionais.

O que você acha mais importante do que a formação? 
Construir uma reputação sólida. O empreendedor precisa do apoio de amigos que indiquem pessoas influentes para o negócio. Para isso, é preciso ser reconhecido pela competência e pelos resultados — algo que não se aprende em nenhuma escola de negócios. Cursos enfatizam a importância de ter empatia para conquistar pessoas e de ouvi-las, mas não se aprende a fazer isso senão na prática.

De que outras maneiras é possível aprender?
O empreendedor só terá sucesso se estiver antenado com o que está acontecendo no mundo dos negócios e pesquisar as tendências e quais novas habilidades pode adquirir. Esse tipo de estudo é um investimento, mas não necessariamente em cursos — dá para aprender muito em livros, palestras, sites. É diferente quando se cria um negócio em uma área pela qual se tem paixão: nesse caso, mesmo sem intenção, você acaba estudando aquele assunto por puro prazer.

É possível aprender a ser empreendedor? 
Algumas coisas não se aprendem, são características inatas, como ter paixão, perseverança, saber que vai cometer erros e que tem de lidar com isso. E, claro, estar disposto a trabalhar muito.

DA CADEIRA DE CEO PARA O BANCO DA ESCOLA

O que levaria o dono de uma empresa com faturamento anual de R$ 10 milhões a voltar à escola? Aprender a fazer mais dinheiro é uma resposta. Mas aprimorar suas habilidades como empreendedor, ganhar eficiên¬cia e tornar seu negócio perene foi o que motivou Wel-lington Morga¬do, proprietário da Aguaboa, fornecedora de água para o mercado corporativo, a estudar novamente. Depois de um MBA Executivo, o empresário reformulou completamente a gestão financeira de sua fábrica em São Caetano do Sul, em São Paulo, e deve crescer 20% neste ano. O efeito do curso sobre o desempenho é evidente.

A educação continuada oferece ferramentas para diversas fases, desde a elaboração do plano de negócios até a consolidação de uma operação madura. “Um bom programa de empreendedorismo é aquele que consegue identificar as particularidades do aluno e integrá-las nas diferentes realidades”, diz Jaqueline Almeida, gerente de Atendimento Individual do Sebrae Nacional.

Startups, por exemplo, podem aproveitar cursos rápidos do Sebrae e de instituições como FGV e Fundação Dom Cabral, que apresentam técnicas essenciais para a empresa se desenvolver, como finanças, formação de preços, planejamento estratégico e marketing. Nos cursos de especialização, o contato prolongado com outros empresários e especialistas favorece o debate. “A pessoa pode testar seu modelo em sala de aula. Imagine receber espontaneamente avaliações de gente com a mais variada gama de experiências e competências? É inestimável”, afirma Alexander Damasceno, CEO da BI International, escola paulistana de negócios parceira de instituições internacionais como Babson, Columbia e Johns Hopkins.

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Fonte: Confira a matéria completa em Pequenas Empresas Grandes Negócios, Capa, 01/07/2011

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