Pesca de ocasião (Veja)

Sites de compra coletiva atraem consumidores com promoções instantâneas e descontos superiores a 50%

Por Renata Betti

PROMOÇÕES NA REDE Julio Vasconcellos, do site de compra coletiva Peixe Urbano: inspiração em serviço dos EUA

PROMOÇÕES NA REDE
Julio Vasconcellos, do site de compra coletiva Peixe Urbano: inspiração em serviço dos EUA

Em novembro do ano passado, o empresário Elias Freire Junior, 40 anos, abriu na Zonal Sul de São Paulo uma loja de cupcakes, os famosos bolinhos Americanos do tamanho de uma xícara, de receitas saudáveis e que não levam ovos nem manteiga. No início de maio, um cliente sugeriu que ele virasse parceiro do Peixe Urbano, um site que reúne restaurantes, spas, peças de teatro e até atividades de esportes radicais para oferecer seus produtos e serviços a uma extensa base de pessoas cadastradas, normalmente com descontos de 50% do valor original. A lógica do negócio se assemelha à de um atacadista: vender por menos, mas numa escala superior. No lugar de comerciar um volume elevado com um único cliente, no entanto, a ideia é alcançar um público extenso de uma única vez. Junior gostou da proposta e decidiu anunciar a sua DeliCake no portal de compras coletivas. “O retorno foi surpreendente. Achei que ia vender no máximo uns trinta bolinhos, mas o número passou de 800 unidades em dois dias”, conta o empresário. Apesar de não ter tido praticamente nenhum lucro com os cupcakes vendidos pela metade do preço, já que suas margens são baixas, o investimento valeu a pena por causa da divulgação de sua loja. “Onde mais eu conseguiria anunciar a minha lojinha a dezenas de milhares de pessoas gastando pouco?”, questiona o paulista, que estima ter conquistado cerca de 150 novos clientes no último mês.

 Os sites de compra coletiva, como são chamados, são recentes no Brasil. Os pioneiros ainda não possuem mais de seis meses de vida. O primeiro negócio do tipo apareceu no fim de 2008, nos Estados Unidos. Criada pelo americano Andrew Mason, então com 27 anos, a Groupon nasceu com o propósito de anunciar promoções diárias na cidade de Chicago. Em pouco tempo, passou a fazer anúncios para outras cidades. O negócio cresceu. Hoje, sua empresa opera em 140 cidades, tem 900 funcionários em dezoito países e deve faturar 300 milhões de dólares em 2010. Recentemente, comprou a sua principal concorrente europeia e teve seu valor de mercado estimado em 1,35 bilhão de dólares. Qual a fórmula do sucesso da companhia americana? “Eles conseguiram unir o forte desejo dos consumidores por promoções ao poder de mercado das compras em grupo, alcançando assim preços inacreditáveis em qualquer setor”, diz o engenheiro Sergio Oliveira, fundador do CityBest, de Minas Gerais, outro site brasileiro nos moldes do Groupon. No mercado brasileiro, há hoje meia dúzia de sites que oferecem esse tipo de serviço.

Independentemente do país ou cidade, a estratégia é bem parecida. Os sites funcionam como uma espécie de intermediário, negociando com fornecedores a venda de algum artigo pelo menor preço possível. As ofertas são apresentadas às pessoas que já se cadastraram no site. As promoções ficam disponíveis por determinado período, em geral 48 horas. Há opções como peças de teatro, tratamentos de beleza e academias. A cada transação concluída, o site fica com uma comissão, que pode variar de 20% a 50% do valor total da venda. O usuário recebe um voucher para usar no estabelecimento dentro de um prazo determinado. Um spa em Curitiba, por exemplo, conseguiu vender 280 sessões de massagem pela internet em poucas horas. Da forma tradicional, levaria mais de um mês para atingir o mesmo número.

Estima-se que, no total, 300.000 brasileiros estejam cadastrados em sites de compra coletiva. Além de venderem a preços inferiores, essas redes procuram funcionar como guias e filtros, fazendo uma triagem da qualidade daquilo que oferecem. Diz o criador do Peixe Urbano, o economista carioca Julio Vasconcellos: “Para assegurar a credibilidade do meu site, não posso deixar qualquer um anunciar nele. A regra na empresa é indicar só aquilo que nós próprios compraríamos”. Oito em cada dez pessoas cadastradas acabam fazendo compras de companhias das quais nunca haviam ouvido falar. Foi por causa disso que a publicitária Renata Zarnowski, dona de um salão de beleza em Belo Horizonte, decidiu se arriscar na web, mesmo sabendo que, no seu ramo, a indicação boca a boca é o melhor meio para conquistar fregueses. Resume ela: “Consegui 200 novas clientes, porque elas confiaram na recomendação do CityBest”.

É claro que nem sempre as promoções agradam. Caso uma oferta não atinja um número mínimo de interessados, o portal devolve o dinheiro aos clientes que já tenham fechado a compra. É raro, mas pode acontecer. Afinal, mesmo no mundo da internet, vale uma das leis básicas de qualquer negócio: o freguês tem sempre razão.

FORNADA O paulista Elias Freire Junior anunciou sua promoção e vendeu 800 bolinhos em dois dias

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O paulista Elias Freire Junior anunciou sua promoção e vendeu 800 bolinhos em dois dias

MAIS FREGUESES A mineira Renata Zarnowski em seu salão de beleza: 200 novas clientes

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A mineira Renata Zarnowski em seu salão de beleza: 200 novas clientes

Fonte: Veja, Negócios, 16/06/2010

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