Um olheiro do Vale do Silício (Exame)

Matt Cohler, sócio do Benchmark e conselheiro do Facebook, faz o primeiro aporte numa empresa brasileira — e está em busca de mais oportunidades no país

Por Luiza Dalmazo

Aos 34 Anos de idade, o Americano Matt Cohler vive de olhos sempre atentos. Sócio do Benchmark, um dos fundos de capital de risco mais ativos no Vale do Silício, e com passagens por algumas das maiores empresas de internet do mundo, Cohler é reconhecido como um dos melhores investidores de sua geração. Foi só no começo deste ano, porém, depois de EXAME trazer à tona a notícia do primeiro aporte do fundo realizado em uma empresa nacional, o site de compras coletivas Peixe Urbano, que seu nome começou a ficar conhecido no país — algo que deve se tornar mais comum daqui para a frente.

“Cohler tem uma enorme capacidade de identificar bons negócios e de convencer os melhores empreendedores a se associar a ele”, diz Simon Olson, sócio do fundo de investimento DFJ FIR Capital no Brasil. As idas e vindas ao país começaram no início de 2010, quando Cohler, que vive na Califórnia, decidiu ver de perto o que estava acontecendo no mercado de internet local — um lugar que chamava sua atenção desde 2004, quando os brasileiros roubaram a cena em uma das maiores redes sociais da época, o Orkut.

Fora do Brasil, não é a posição de sócio do Benchmark — que tem no portfólio investimentos em mais de 150 empresas de tecnologia, como Twitter e eBay — a responsável por tornálo figura carimbada do mercado. Até 2008, quando assumiu o posto no Benchmark, Cohler esteve no centro dos holofotes. Depois de interromper a faculdade de música para atuar na área de marketing da AsiaInfo, empresa de software e telecomunicações em Pequim, Cohler voltou aos Estados Unidos para formar-se com louvor pela Universidade Yale (a graduação em música também incluiu disciplinas de ciências da computação e negócios). Em 2003, aos 26 anos, tornouse gerente-geral da maior rede social para profissionais do mundo, o LinkedIn.

Seu maior destaque profissional, porém, veio em 2005, poucos meses depois de participar de uma reunião com Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, e Sean Parker, na época presidente da empresa. A convite de Parker, Cohler se tornou o sétimo funcionário do Facebook — e, logo de cara, vice-presidente de produtos da rede social recém-criada. Uma vez no cargo, não demorou até que assumisse o papel de consigliere de Zuckerberg — termo usado no livro O Efeito Facebook, de David Kirkpatrick (previsto para chegar às livrarias brasileiras na segunda quinzena de fevereiro). Cohler manteve-se como conselheiro especial do Facebook mesmo depois de deixar a empresa e, de quebra, transformou a habilidade em profissão. “Assim como dei conselhos a Zuckerberg por muito tempo, faço o mesmo com muitos empreendedores. É a tarefa de que mais gosto”, diz ele.

Há dois anos, passou a se dedicar exclusivamente à procura de negócios de tecnologia promissores — razão que o trouxe, enfim, ao Brasil. “Ele me impressionou pela capacidade de entender rapidamente o nosso negócio e pela facilidade com que pensou em estratégias de crescimento”, diz Gustavo Caetano, fundador da Sambatech, startup de transmissão de vídeos pela internet procurada por Cohler durante uma de suas visitas ao Brasil. Entre os investimentos mais conhecidos de Cohler está o realizado no Twitter, que recebeu 35 milhões de dólares do Benchmark e do Institutional Venture Partners, e o de 11 milhões de dólares no Quora, um serviço de perguntas e respostas de especialistas fundado por dois ex-engenheiros saídos do Facebook. “Cohler é um dos investidores mais jovens de empresas iniciantes de sucesso e construiu em poucos anos uma carreira especializada em mídias sociais e Web 2.0”, diz Michael Nicklas, investidor americano que vive no Brasil desde 2008 e hoje dirige o fundo brasileiro Ideiasnet.

Para o Benchmark, o Brasil está ao lado da China como alvo maior de interesse para novos investimentos, especialmente nas áreas de internet e serviços de software e infraestrutura. E isso, segundo Cohler, se deve não apenas ao tamanho dos mercados, mas em especial à atitude dos profissionais de tecnologia da informação desses países. Por aqui, ele vê características que lembram o Vale do Silício de dez anos atrás. “O que mais faltava até hoje eram os fundos de investimento, mas parece que esse problema está sendo resolvido”, diz Cohler. Ele afirma saber que há cada vez mais fundos de olho no Brasil.

Antigos conhecidos do tempo das negociações com o Facebook, os investidores dos fundos Accel Partners e Tiger Global também fizeram o primeiro aporte no país no final de novembro. Juntos, aplicaram 30 milhões de dólares na empresa de jogos sociais para o mercado brasileiro Vostu, criada por estudantes de Harvard em 2007. Além deles, o Insight Venture Partners fez um investimento na concorrente da Vostu, a Mentez, baseada em Miami, mas que tem mais da metade dos negócios vindos do mercado brasileiro.

A relação de Cohler com o Brasil vai além de compromissos e formalidades profissionais. Enquanto buscava oportunidades de investimento por aqui, seu irmão mais novo, Luke Cohler, procurava startups interessantes em que pudesse atuar. Aproveitando sua fluência em português, Luke havia se mudado para o Brasil no início de 2010 para trabalhar na consultoria Bain & Co. Segundo ele, por uma “completa coincidência”, o dois foram parar na mesma empresa — o Peixe Urbano. Luke entrou como empregado em novembro e, no mês seguinte, o Benchmark entrou na jogada. “A equipe e o negócio da empresa chamaram nossa atenção separadamente”, diz o irmão mais famoso. Acaso ou não, uma coisa parece certa — investidores do calibre de Cohler deverão, cada vez mais, aparecer por aqui.

Fonte: Exame, Tecnologia, 07/02/2011

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